segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Quem viu

(Luiz Magalhães)

Quem viu o vaso quebrado
Viu a corda rompida
A fera entocada
A mente ferida

Quem viu a estrela explodir
Viu a semente brotar na rocha
A lenda se tornar história
A bruxa quebrar o feitiço da razão

Quem me viu chorar
Viu lobo banguela
E o desmanche pairando no ar

Quem assistiu a queda
Viu o muros em riste 
E os dedos apontados para si mesmo

Quem sentiu o espírito do tempo
Viu o diabo gozar
O santo ralhar
A luz cegar
A palha a queimar

sábado, 23 de setembro de 2017

Feminina fogo fátuo

(Luiz Magalhães)

Menina fogo fátuo da vida

Sal que queima as feras feriadas
Luz que incorpora e que me cega demais

Estrela que vias lácteas infinda
Herença que pago antes da minha partida
Asa branca do luar tão cândido do meu sertão 

Duvidas das minhas mentiras
Acreditas nos papos dos astros
É mais doce que a própria cajuína

Me faz de velho farrapo
Como gata que caça um rato entocado 
Unhas e garras e dentes e mentes
Mirando na minha

Mulher na noite estampada
Com selo de uma lua dourada
No céu teu brilho é alvorada
Voraz, atroz, feroz
Seduz a escuridão 

Feminino força da terra
Do chão brotas e nas águas reinas
Mirra, ouro, incenso e areia

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Cidade Nova

(Luiz Magalhães)

Eu quero uma cidade limpa
Uma cidade iluminada e iluminista
Uma cidade branca, na qual o preto do cinza
Fora devidamente destituído de seu bel-devir

Uma cidade sem exageros, comedida, cordial e cortês
Quero habitar um lugar insípido e inodoro, como a água com flúor
Translúcida, para ver do outro lado
Que ligue ponto-a-ponto, a ponto de desligar-me
Uma cidade em que só se fala o essencial: despoluída sonoramente
Eu quero uma cidade reluzente, esfregada com água sanitária
Uma cidade cômoda e confortável
Onde não há disputas
Da onde eu não possa te ver
Eu quero uma cidade aprazível, aconchegante
Mais plumas de ganso do que asfaltos
Eu quero uma cidade que parou, que me empedra
Eu quero é morar num paraíso!
Quero cânticos que afofem meus ouvidos
Que se encontrem em consonância com a minha vontade
Aquela mesma: estagnada em si
Eu quero uma utopia distante
Que não me dê trabalho a curto-médio-longo prazo
Um não-lugar não-possível de talhar
De rachar
Habitado por uma humanidade incorruptível
Eu quero uma cidade que me ensurdeça
Com seu silêncio tom pastel
Eu quero a paz e a felicidade mórbida daqueles
Que passam a vida filtrando a água do aquário
E que morreram bebendo água oxigenada



sábado, 22 de julho de 2017

Onde se escondem os alto-falantes

A poesia é medo e sedução
Esconderijo e alto-falante
Em silêncio, ela amplifica aqulio que está intocado mas relutante
Sem tirá-lo, porém, do lugar

Ó, poesia, és tu mesma
O estetoscópio dos loucos e dos não-médicos
Respira: uma fobia
Expira: uma paranoia
Grunhe: uma arma
Grita: aquilo que te salva

A poesia tá ali, no núcleo: inlocalizável e impermanente
Mistura-se a tecidos, órgãos, bactérias, glóbulos brancos
E a vida que não é ser: é vírus
Ser desprovido de metabolismo próprio
Mas que já vem com plural

A poesia é bela
Segue, quando quer, padrões estéticos.
Gosta de partilhar o sensível
Ao mesmo tempo em que enfoca, esconde
Ela rega e degola; encontra e perde
Sabe e omite
Mente mas aponta o caminho

Escrever é jogar-se fora
Na calçada
Na rua
Na sarjeta

O poeta é o tipo do cara que entope o ralo
Que traz o esgoto à tona
Que mexe com o lixo

O poeta entendeu, desde cedo
Que o lixo da mente é o luxo na da alma.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Grave idade

(Luiz Magalhães)

Hoje as portas se fecharam
Os grilos se calaram
E o peso ficou mais pesado que a consciência

O dia é cinza
É da cor das cinzas do meu pai
Que eu espalhei na relva das lacunas
Por entre os tijolos das paredes da memória
Expostas
Sem gesso
Sem tinta

Hoje o mundo cai mais rápido que o tempo
Ele corre para o fundo, para o andar debaixo

A força da gravidade é lei não-escrita
É olho por olho; dente por dente
Queda por queda

Meu estômago não é mais o mesmo depois desse livro,
Dessa foto
Desse quadro
Ou dessa música
Eu não sou mais o mesmo depois do passado
E muito menos desse tal de depois: o para-além-do-que-já-passou

Tem regra não
Tem riso só quando a raiva vem do ventre
Tem choro só quando desmorono
Só quando a casa cai
Quando o chão se abre
Quando a gravidade dá o ar de sua graça

Tem santo que dê jeito?
Sei lá
Talvez o mito
Que é a mesma coisa

Tem arroz na mesa
Onde exercemos a nossa sobrevivência
Lá, na mesa
Onde a carne é servida, depois de morta

Na sala de jantar
Na hora do almoço
Tudo é aquela coisa
Dentes apostos
Sangue nos olhos
Estômago em sacia-ação

Digerir a carne é apodrecer-se por dentro

domingo, 7 de junho de 2015

Tem poesia

(Luiz Henrique Costa)

Tem poesia para vender
Para comprar, para amar
Tem poesia que não se deixa calar

Tem poesia debaixo do pé
Na sola do sapato
Tem poesia na sombra
Que te acompanha
Escorada num muro de chapisco

Tem poesia no resto
No lixo, lá fora
Tem poesia no fundo da sacola
Nos fundilhos das calças
No remendo da cueca

Tem poesia que virou pó
E que a gente inalou

Tem poesia no chão
No barro, na lama
Tem poesia que s ensina e que engana

Tem poesia que é fantasia
Fantasma de infante

Tempo poesia concreta
Que não dissolve
Que não resolve

Tem poesia pura, adulterada
Estragada - fora de validade

Tem poesia que sangra
Que coagula
Que cura
E que deixa cicatriz


A primavera

(Luiz Henrique Costa)

A primavera da alma não tem flores
Ela é feita de voltas
Que a Terra dá em torno do Sol

A primavera da alma tem espinhos
A dor contínua não deixa esquecer
Que a primavera da alma chegou

A primavera da alma não é bela
Não cabe num cartão postal
É cinza e vai embranquecendo

A primavera da alma chega depois do inverno
Para aquecer o espírito

A primavera da alma termina com o fogo
Do verão



domingo, 18 de maio de 2014

Evapora

(Luiz de Magalhães)

Amor
que vai
volta

Se não
volta
fica

Quando fica
evapora

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pensamento-degradê

Pensamento-degradê
(Luiz Henrique Costa)

A tarde que cai e a manhã que surge

A morena, o mulato e o cafuzo
O cinza e dia o nublado com chuvisco
O morno, o outono e a primavera que brota
O especto do arco-íris
O pensamento-degradê

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Deusa dos ventos

Deusa dos ventos
(Luiz Henrique Costa)

Olhos que cegam a sobriedade
Sorrisos que abraçam o além-mar
Ela foi dica do sabiá
Concha do colar dos botos
Fruto da espera do carvão

Deusa dos ventos que desviam rotas
Que confundem as aves
E espalham o fogo

Overdose da natureza
Contemporânea dos lírios
Tiro certeiro na mata

Ela veio do barro
Se esgueira pelas pedras
E anda acima das copas





Bom dia.

Bom dia.
(Luiz Henrique Costa)

Acordar, café, manhã
Abrir a porta
Ignição.

- Olá! sentar, horas, passar
Páginas, sim, não,
- Melhor da próxima vez!

TV, sofá, estar, jantar
- Como vai?

Cama, vira,
- Até amanhã.









Ode a vontade

Ode a vontade
(Luiz Henrique Costa)

Que vontade de poder!
Querer que late latente
Potência de poder - à vontade

Quero sorrir a esmo
Esmerar-me em vossos segredos
Segregar o corpo da mente
Mentir pra poder voar

Asas pra cantar bem alto
Altura para cair bem devagar
Divagar atento à Lua
Enluarar-me ao som dos grilos-falantes

Ah! que vontade dessa vontade!
Beber das águas do fundo do mar
Nadar nas poças de nuvens
Levitar nas ondas que chegam aos ouvidos

Fonte do desejo do querer
Coisa-que-quer-por-si-só
Comichão que dá e não passa






Poetinha

Poetinha
(Luiz Henrique Costa)

Poeta escreve sons
Respira mundos
Desconfigura a matéria
Carnavaliza o absurdo

O poeta não entende porque o leêm


Coração Poente

Coração Poente
(Luiz Henrique Costa)

Coração entope
Quando há limo nas palavras-fechaduras
Coração abre
Quando escrevo sem pontuação
Coração não atura
A mania de esconde-esconde
Perplexo, se põe
E nasce no lado oposto
Ao Sol.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Humanóide

Humanóide
(Luiz Henrique Costa)

Era tão bom quando era humano
Era tão difícil quando era humano
Tão fêmea, tão macho - quando era humano

Era tão diferente de tudo que existia
Era tão mutável, quando era humano
Havia sabores, cores e sentidos
Quando éramos humanos

Agora tudo engrenou
Agora tudo engraxou
Agora tudo engavetou
Tudo embotou

Agora o ser é semi-humano
Semi-cor, semitons,
Um ser sem si em semi-metafisica


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Procura-se sonhos perdidos

Eu tinha sonhos
De verão e primaveras
Eu tinha um mundo
Que criei
Havia invernos e outonos
Havia riquezas não-palpáveis
Realidade incomensurável
Meus mitos, meus monstros
Minha terra não-natal
Porém minha; e sua.
Havia você.
Havia.

terça-feira, 10 de maio de 2011

#daqui pra frente

Às vezes acho esses lances aqui muito esquisitos.

Tudo bem... A proposta é ser estranho.

Há um fundo político nisso tudo.

Mas me incomoda.

Porém, não consigo "migrar" para outro blog, outro título, outra marca, outro pseudônimo.

Me identifico com esse.

Queria um sentido aqui.

Um trabalho de comunicação.

Vou trabalhar nisso.

Juro.

Maio

Maio
(Luiz Henrique Costa)

Maio.
Alegria!
É Maio!

Mãe,
É Maio!

Mãos à obra,
Muitas ações.

Mãe,
É Maio!



Punge

Punge
(Luiz Henrique Costa)

Ainda está dentro, e vive por dentro
Ainda punge, pulsa, pensa
Repulsa, repensa e recria
Tudo ele recria
O que está lá começou aqui
O que cerca, cerca o que precisa ser cercado.

O que é
Precisa ser,
Senão
Não é nada.

Aqui passou um vento forte
Levou tudo
Levou o que era leve
E derramou o que era pesado

O que é
Precisa ser,
Senão
Não é nada.

#De volta

Sempre quando clico em "nova postagem" me dá um branco. Mas vou tentar escrever de qualquer maneira, pois isso aqui tem me feito falta.

Poesia? Sei lá... Não sei se vai funcionar. O que é poesia feita para ser lida na internet? Ainda é poesia? Eu não leio muito livros de poesia... Eu posso ser poeta? Mas gosto de letras de música e livros de sociologia, serve?

Alguém ainda se interessa por poesia? Alguém sabe criticar uma poesia? O colégio ensina isso? Eu faço poesia contemporânea? Poesia é para todos? Tenho influências concretas? neo-concretas?... Poeta naif? Poderia eu criar esse movimento?

São tantas questões que não sei o que vai ser, o que vai rolar. Mas vou escrever, pois eu mesmo disse que se calar dói. E tá doendo.