sábado, 22 de julho de 2017

Onde se escondem os alto-falantes

A poesia é medo e sedução. Esconderijo e alto-falante. Em silêncio, ela amplifica o que tá guardado, intocado mas relutante: sem tirá-lo do lugar, porém. É o estetoscópio dos loucos e dos não-médicos. Respira: uma fobia. Expira: uma paranoia. Grunha: uma arma. Grite: aquilo que salva. A poesia tá ali, no núcleo: inlocalizável e impermanete: mistura-se a tecidos, órgãos, bactérias, glóbulos brancos e a vida que não é ser: é apenas um vírus: desprovido de metabolismo próprio e de plural. A poesia é bela. Segue, quando quer, padrões estéticos. Gosta de partilhar o sensível: ao mesmo tempo em que enfoca, esconde; rega e degola; encontra e perde; sabe e omite; mente e aponta o caminho. Dá luz, pari. Escrever é jogar fora. Na calçada. Na rua. O poeta é o tipo do cara que entope o ralo. Que traz o esgoto. Que mexe com o lixo.O lixo da mente é o luxo na da alma.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Grave idade

Hoje as portas se fecharam. Os grilos se calaram. O peso ficou mais pesado que a consciência. O dia é cinza. É da cor das cinzas do meu pai. Que eu espalhei na relva das lacunas, entre os tijolos das paredes da memória expostas, sem gesso: sem tinta. Hoje o mundo cai mais rápido que o tempo: corre para o fundo. A força da gravidade é lei não-escrita. É olho por olho; dente por dente; queda por queda. Meu estômago não é mais o mesmo depois desse livro, dessa foto, desse quadro, dessa música: depois do passado. O depois: o para-além-do-que-já-passou. Tem regra não. Tem riso só quando a raiva vem do ventre. Tem choro só quando desmorono. Quando a casa cai. Quando o chão  se abre. Quando a gravidade dá o ar de sua graça. Tem santo que dê jeito? Sei lá. Talvez o mito. Que é a mesma coisa. Tem arroz na mesa, onde exercemos nossa sobrevivência. Onde a carne é servida, depois de morta. Na sala de jantar, na hora do almoço, tudo é aquela coisa: dentes apostos; sangue nos olhos; estômago em sacia-ação. Digerir a carne é apodrecer-se por dentro.

domingo, 7 de junho de 2015

Tem poesia

(Luiz Henrique Costa)

Tem poesia para vender
Para comprar, para amar
Tem poesia que não deixa calar

Tem poesia debaixo do pé
Na sola do sapato
Tem poesia na sombra
Que te acompanha
Escorada num muro de chapisco

Tem poesia no resto
No lixo, lá fora
Tem poesia no fundo da sacola
Nos fundilhos das calças
No remendo da cueca

Tem poesia que virou pó
E que a gente inalou

Tem poesia no chão
No barro, na lama
Tem poesia que ensina e que engana

Tem poesia que é fantasia
Fantasma de infante

Tempo poesia concreta
Que não dissolve
Que não resolve

Tem poesia pura, adulterada
Estragada - fora de validade

Tem poesia que sangra
Que coagula
Que cura e deixa cicatriz


A primavera

(Luiz Henrique Costa)

A primavera da alma não tem flores
Ela é feita de voltas
Que a Terra dá em torno do Sol

A primavera da alma tem espinhos
A dor contínua não deixa esquecer
Que a primavera da alma chegou

A primavera da alma não é bela
Não cabe num cartão postal
É cinza e vai embranquecendo

A primavera da alma chega depois do inverno
Para aquecer o espírito

A primavera da alma termina com o fogo
Do verão



domingo, 18 de maio de 2014

Evapora

(Luiz de Magalhães)

Amor
que vai
volta

Se não
volta
fica

Quando fica
evapora

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Pensamento-degradê

Pensamento-degradê
(Luiz Henrique Costa)

A tarde que cai e a manhã que surge

A morena, o mulato e o cafuzo
O cinza e dia o nublado com chuvisco
O morno, o outono e a primavera que brota
O especto do arco-íris
O pensamento-degradê

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Deusa dos ventos

Deusa dos ventos
(Luiz Henrique Costa)

Olhos que cegam a sobriedade
Sorrisos que abraçam o além-mar
Ela foi dica do sabiá
Concha do colar dos botos
Fruto da espera do carvão

Deusa dos ventos que desviam rotas
Que confundem as aves
E espalham o fogo

Overdose da natureza
Contemporânea dos lírios
Tiro certeiro na mata

Ela veio do barro
Se esgueira pelas pedras
E anda acima das copas